Por Mikaela Weisse e Marcelo Matsumoto


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O Brasil é uma boa vitrine do uso eficaz de monitoramento por satélite para a redução do desmatamento, que na Amazônia Brasileira diminuiu cerca de 70% desde 2005, parcialmente graças ao programa governamental conhecido como PRODES (Projeto de Monitoramento por Satélite do Desmatamento da Amazônia Legal). Os dados do PRODES são as estatísticas oficiais usadas pelo governo para estabelecer políticas públicas e rastrear o progresso em relação às metas de redução de desmatamento. Agora, estes dados atualizados anualmente estão disponíveis no Global Forest Watch.

PRODES-deforestation_PORRealizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o PRODES monitora a Floresta Amazônica do espaço desde 1988.

Embora os dados do PRODES tenham se tornado públicos em 2003, era necessário ter acesso a recursos e habilidades técnicas para vê-los e entende-los. Ao serem inseridos no mapa interativo e de fácil uso do GFW, os dados do PRODES agora podem ser uma fonte de informações sobre a Amazônia Brasileira para um grupo muito maior de interessados—de estudantes a jornalistas, de gestores de políticas públicas a acadêmicos—a apenas um clique de mouse ou um toque no celular.

PRODES: uma breve introdução

O INPE fez o primeiro inventário de desmatamento da Amazônia Brasileira cobrindo o período de 1977 a 1979, usando versões impressas de imagens do satélite Landsat. A agência começou o atual rastreamento anual do programa PRODES em 1988. O Projeto difere de outros dados de mudanças florestais no GFW—como o GLAD (Perda de cobertura florestal anual) em aspectos importantes e complementares.

Em primeiro lugar, o PRODES usa uma combinação de análises humana e computadorizada. Houve muitos avanços desde seus primeiros dias, quando as imagens eram marcadas a mão por analistas—um processo caro e lento. Hoje, os computadores fazem o trabalho pesado, mas o método ainda envolve interpretação humana. O conhecimento especializado de analistas permite que o PRODES identifique o desmatamento em si, ao invés da perda de cobertura arbórea.

Em segundo lugar, o PRODES não detecta áreas menores do que 6,25 hectares—mesmo que a resolução seja maior, a 30 metros como o GLAD, este critério resulta em menos erros, mas limita a detecção de pequenas áreas de desmatamento.

Em terceiro lugar, o PRODES é atualizado anualmente, e seu período de monitoramento vai de 01 de agosto até 31 de julho. Os dados do PRODES de 2015, por exemplo, mostram o desmatamento que ocorreu entre 01 de agosto de 2014 e 31 de julho de 2015. Este período permite uma melhor coleta de imagens, pois julho-agosto é o meio da estação seca, quando é menos provável que a floresta esteja coberta por nuvens. O período também é mais alinhado com os ciclos típicos de desmatamento na região.

Por fim, a cobertura do PRODES se concentra apenas na Amazônia Brasileira. Os dados são comumente mal interpretados pela imprensa e outras organizações como sendo a taxa de desmatamento nacional do país. Outros grandes biomas florestais, incluindo o Cerrado e a Mata Atlântica, não entram nesta conta.

PRODES UMD Annual Tree Cover Loss
Resolução 30 metros, mas tamanho mínimo de área de 6,25 ha 30 metros (área mínima de 0,09 ha)
Cobertura Amazônia Brasileira Global
Método Segmentação de imagens e interpretação de analistas Esquema de decisões automatizadas
Definição de ano 01 de agosto a 31 de julho 01 de janeiro a 31 de dezembro

A importância de dados oficiais

O PRODES é o primeiro conjunto de dados nacionais oficiais no Global Forest Watch. Este tipo de dado, que usa os próprios levantamentos do governo, é extremamente importante para a sensibilização e monitoramento. Houve casos em que o governo brasileiro deixou de lado determinadas conclusões analíticas, porque as análises eram baseadas em conjuntos de dados não oficiais. Com o PRODES, cujos dados são produzidos, validados e aprovados pelo governo, os resultados não podem ser facilmente ignorados em discussões envolvendo políticas públicas.

O PRODES permite que o governo brasileiro monitore desmatamentos em propriedades privadas e dentro de áreas protegidas, tendo se tornado referência para outros projetos de monitoramento na Amazônia Brasileira. Por exemplo, o acordo voluntário da Moratória da Soja, que tem sido muito eficaz em remover o desmatamento da cadeia produtiva da soja,  é monitorado e aplicado usando um derivado de dados do PRODES. No Global Forest Watch, os usuários podem chegar a resultados oficiais de monitoramento usando estes dados-padrão. Os números podem não corresponder exatamente às estimativas oficiais, devido aos complicados métodos de contabilização usados para áreas cobertas por nuvens, mas é um bom começo.

O Brasil ainda lidera na questão do monitoramento eficaz

O PRODES não é o único conjunto de dados de monitoramento florestal para a Amazônia Brasileira—o DETER é o sistema de monitoramento de alertas de desmatamento mensal do INPE, o SAD é um produto de alerta mensal do Imazon e o GLAD Perda de cobertura arbórea é um conjunto de dados anuais globais da Universidade de Maryland e do Google. Todos estes sistemas têm diferentes metodologias e  utilidades distintas para monitorar a situação da Amazônia Brasileira. Não há um sistema definitivo de dados para identificar desmatamentos na região; em vez disso, comparar onde eles coincidem ou não pode resultar em descobertas novas sobre a situação das florestas.

O governo brasileiro utiliza o PRODES como a base de estatísticas oficiais de desmatamento, portanto qualquer percepção ou análise direcionada ao governo brasileiro, será provavelmente melhor recebida se tiver como base os dados do PRODES.

Em muitos aspectos, o PRODES inspirou o Global Forest Watch, ao mostrar ao mundo que aperfeiçoar o monitoramento de desmatamento pode levar a um melhor manejo das florestas. Ao tornar estes dados ainda mais acessíveis, esperamos que a tradição de distribuir dados oficiais e independentes se espalhe pelo planeta.


BANNER PHOTO: Desmatamento na Amazônia, vista de satélite. As estradas na floresta seguem um padrão “espinha de peixe” típico. Source: NASA através da Wikimedia Commons.